DE TUDO UM POUCO

O Ironman que ninguém vê! parte 2/2


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Foto: “Doc Danny Lee” – arquivo pessoal


Melhor que eu para falar
, apenas quem já participou e irá novamente fazer a prova. A rotina, a dificuldade o planejamento, a dor e alegria de ao final da jornada entrar no funil e passar pelo pórtico e cruzar a linha de chegada.

Ele é mais conhecido como “Doc” e é figura conhecida aqui em Floripa no meio do esporte. É o “mecânico” dos triatletas. O Dr. Daniel Carvalho (35) é ortopedista e se desdobra entre consultas, cirurgias e plantões, seja no hospital em que trabalha ou na clínica que atende.

Sempre com uma piada na ponta da língua e a simpatia de quem sabe o quanto é importante dar atenção aos outros ele cedeu alguns minutos do seu tempo para escrever o relato abaixo.

“Doc Danny Lee”, thanks a lot and its time to hard work!

Boa prova e se der nos vemos na linha de chegada!

Planejando o Ironman

Antes de mais nada, muitas pessoas acabam sendo apresentadas ao triathlon através do Ironman. Tudo bem que talvez seja a maior prova do esporte em nosso país, com maior número de competidores, com maior visibilidade e que movimenta muito dinheiro. Mas o triathlon é muito mais que isso. Existem diversas provas, circuitos com distâncias mais variadas… e é aí que me refiro… quando vamos planejar competir um Ironman, no meu ponto de vista, o atleta já tem que chegar à prova com algum “lastro” .. e não estou falando de treinos maciços, e sim de provas menores. Vejo muitos desejando completar um Iron, pois já são corredores (maratonistas) ou nadadores, sem nunca sequer ter participado de uma prova “short” ou Olímpico… Vai por mim, é bem diferente.

Então aqui vai a primeira dica: quer fazer um Iron, aprenda o que é triathlon, faça uma, duas ou mais provas curtas, faça um ou dois meio-irons (que ao meu ver é a melhor prova pois tem o endurance e simula um pouco a emoção do Ironman, mas é ao mesmo tempo, digamos, acessível e demanda menos treino, em volume)… Quanto ao Ironman propriamente dito, eu separaria em 3 tipos de atletas:

Grupo I – Atletas de ponta ou elite. O nome já explica. São atletas que vivem disso. Não fazem a prova pra se superar, ou pela camisa de Finisher, ou pra escrever um livro depois. Fazem a prova pra ganhar, pra competir, pra baixar seu tempo. Eles vivem de triathlon, direita e indiretamente. Correspondem a 5% dos atletas e têm tempos baixíssimos, para os homens sub 9h e mulheres sub 10h.

Grupo II – Atletas semi-pros ou amadores de elite. São bons ou excelentes atletas, muito são aspirantes a elite, outros, são pessoas “comuns” mas que dominam muito bem a prova e fazem excelentes tempos. Essa turma normalmente têm uma vida normal, com trabalho, mas seguem a planilha a risca e regem sua agenda de trabalho em cima da planilha. Possuem bons tempos, muitos conseguem vagas para o mundial em suas categorias. Os Homens normalmente são sub 10h30 e as mulheres sub 11h correspondendo a 20% dos que completam o Iron

Grupo III – o restante, grupo ao qual me incluo, pessoas do dia-a-dia. Médicos (meu caso) , advogados, mães de família, empresários, idosos, gordos, magros, etc… Que seguem suas vidas normais mas treinam para o Iron como podem. Fazem em sua maioria para se superar e por serem maioria, trazem um brilho todo especial à prova. Muitos têm histórias surpreendentes, tais quais, se curarem de uma doença terminal, carregar o irmão durante a prova ou pedir a namorada em casamento na finish line…

Claro, nada impede de uma pessoa que tenha o perfil do grupo III, mas realize feitos dignos do grupo II. Até porque aí já encontra-se a superação.

A Planilha

O treino para o Ironman varia muito de pessoa para pessoa. Uns têm mais facilidade com o pedal, outros com a corrida, e por aí vai. Sendo assim, mesmo que haja tal facilidade, recomendo sempre, e primeiramente, buscar um bom treinador, o qual confeccionará uma planilha de treino, de acordo com a disponibilidade do atleta. Não adianta eu, trabalhando 10 horas num dia, querer seguir a planilha de treino de um atleta do Grupo I. É inviável. Por isso, as planilhas são muito pessoais e ao meu ver intransferíveis.

O Empreendimento

Preparar-se para o Ironman, deve ser encarado como um empreendimento. Custa relativamente caro, eu diria que quase 1000 reais mensais se discriminarmos todos os gastos (exceto equipamento). É um grande aprendizado. Conhecemos melhor nosso corpo, até que ponto dá pra apertar o pace numa corrida, o quanto conseguimos administrar a fome durante um pedal longo, e por aí vai. Por isso, entra em paralelo à planilha de treino, o suporte nutricional. À medida que a carga de treino aumenta, surgem as dores, normais, fazem parte de um treino pesado, com isso, faz-se necessário (até de forma preventiva) um suporte medico (para identificar as lesões) e fisioterapêutico (para tratar a maioria delas e prevenir). Se eu fosse treinador, eu colocaria na planilha de treino um suporte fisioterapêutico profilático.

Logística e equipamentos

O preparo para o Iron, inclui também o suporte às três modalidades, os treinos específicos em piscina, musculação, pilates como adjuvantes, rolo para pedal estacionário quando em horários não convencionais ou dias de chuva, equipamentos inerentes ao ciclismo, revisões periódicas da bicicleta… enfim, mais custos.

O treinamento

Bom, traçado o plano, equipamentos necessários já adquiridos, suporte nutricional ok, lesões em acompanhamento com medico e fisioterapeuta, hora de início ao treino específico. Partindo-se do princípio que o atleta já tem uma base, ou seja, já fez um meio ironman (ou long distance), ou já fez uma maratona ou diversas meia-maratonas, sabe nadar em águas abertas, ou tem alguma experiência com travessias, é hora de partir para planilha específica. Eu diria que leva 6 meses para um bom treino. 3 meses de base e 3 meses específicos.

No meu caso, devido ao trabalho, eu tenho natação (em piscina) 3 dias na semana (das 0600 am as 0700 am) distâncias variando entre 1800 a 2700 metros. 3 dias de corrida na semana (geralmente fim de tarde ou a noite) sendo na segunda-feira uma corrida solta ou tiros (distâncias variando de 7 a 14km) na quarta-feira os longos (que foram progressivamente de 12 a 36 km) e quinta-feira uma corrida regenerativa (entre 30 a 60 min) 3 dias de pedal, sendo na sexta feira de manhã um pedal intervalado com tiros (distâncias de 40 a 70 km) , no sábado o treino de transição (falarei a seguir) e no domingo os longos (que iam de 90 a 180km)

O Treino de Transição

É o treino mais sagrado do triathlon, feito normalmente no sábado de manhã em Jurerê juntamente com os demais atletas da asseessoria. Faz-se as três modalidades em distâncias moderadas, normalmente 2 a 4 km de nado, 40 a 70 km de pedal e 10 a 21 km de corrida.

Tudo isso é de certa forma encaixado na rotina de trabalho. Claro que pra um cara como eu, bastante ocupado e com diversos empregos e cargos, fica difícil concluir 100% da planilha, acredito que eu tenha feito 80% dela.

É cansativo, precisa de muita motivação, é preciso realmente querer fazer isso. Depende única e exclusivamente do atleta. Acordar numa segunda-feira de madrugada, nadar 3km em piscina e depois encarar 24 horas direto de plantão nunca é mole. Por estas e outras, considero os 3 meses que antecedem a prova, o Ironman em si, o Ironman que ninguém vê. O dia da prova mesmo , é a festa, é demonstrar que todo este sacrifício serviu para alguma coisa. Ser Ironman é saber enfrentar e superar as adversidades que o dia-a-dia apresenta, as lesões que aparecem no corpo, as incertezas e desmotivações alheias mas que interferem no treinamento, é privar-se de festas, de amigos, da família, tudo em prol do treino…

Ironman é para poucos, não há cotas, não há “bolsas de auxílio”, triatleta não se joga no chão e finge sofrimento quando sofre uma falta, triatleta não mata treinos por qualquer lesão, triatleta não tem feriado, final de semana, não descansa porque é domingo ou porque é Natal… triatleta respeita ao treino, porque a vontade de treinar tem que ser maior que a vontade de vencer.

Se vale a pena? Pergunte aos 2000 que cruzarem a linha de Finisher em 26 de maio de 2013.

Um abraço

Daniel Carvalho

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5 comentários em “O Ironman que ninguém vê! parte 2/2

  1. Daniel, muito bom o texto… gostei de saber que estou no caminho certo, venho das maratonas, 10 anos, 15 provas, fora uma ultra 100k, várias meias e provas de 10k, não me acrescentavam, sentia a falta de algo a mais. Agora, com um grande amigo estou á 6 meses no Triathlon, vicie, gosto muito, mas tenho a consciência de que preciso ainda de muito tempo de treinos e provas curtas para depois tentar um IRON, treino aqui em SBC, na estrada velha de Santos… um ótimo local para trabalhar volume, dá pra fazer as 3 modalidades tranquilamente. Por isso, comprometimento nos treinos, agenda em ordem para esse ano inteiro, e ano que vêm, se estiver legal, tento o 70.3. A Meta é o Iron, mas com a ciência de que não é fácil… mas não impossível.

    Há!Recentemente lí uma matéria dizendo a maioria dos triatletas e finisher´s do Ironman são homens acima dos 40 anos, tô dentro! abraços, rs

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